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sábado, 11 de julho de 2009

O pato e a palavra


Um dia eu ouvi atrás da porta, e entre as tantas conversas que interceptei, guardei uma que me chamou mais atenção. Tratava-se das coisas remosas. Daí surgiu a pergunta: o que é remoso?
Depois de ouvir uma receita inteira de pato ao molho pardo, sem sangue, como enfatizou uma das partes, já que a conversa ocorrera entre minha mãe e a vizinha do 102 – entendi que aquilo era só comida. Mas... será mesmo?!? Continuei em dúvida.
No fim, minha mãe explicou: o que sai da boca é que é remoso; esse pato é apenas alimento, depois que passa pelo aparelho digestivo vira cocô e vai parar na privada, mas o que sai da sua boca não. As palavras vêm do coração e quando são ditas com ódio, raiva ou qualquer coisa desse tipo fazem mal a você e a quem ouve. Machucam, por isso são remosas.
Com um “é mesmo” de espanto e concordância por parte da vizinha, a história se encerrou e outra ganhou pauta. Remosa ou não, a conversa das duas continuou por mais meia hora, até que se despediram e eu voltei ao meu mundo, como se nada tivesse acontecido.


Por Lívia de Oliveira

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Encontro Marcado

Como ela havia previsto, encontraram-se. E ficaram calados à espera de um gesto, uma palavra, uma atitude. Pareciam os únicos seres no planeta. Ao se olharem, ele percebera que havia fogos de artifício atrás dela, o que contrastava com a alvidez e a maciez daquela pele. Do outro lado, o que ela viu dava ainda mais brilho ao tom ébano, pois à noite, as estrelas só confirmavam o que já estava claro. Desta forma, os dois tinham a certeza que este era o encontro ideal. Estavam mesmo sozinhos no mundo. Nada mais importava a eles. Após os segundos mais longos de ambas existências, ela decidira entregar-se a este Deus que carrega consigo mistério, sensualidade e cujas tranças laçaram-na no reino da fantasia e do desejo "no seu corpo me embalo, me embolo". Em meio a tantos pensamentos e sensações, ele realmente fora o responsável pela inexistência de Eolo "a única coisa que sei é que o ar me falta". Ela sorria de olhos fechados, pois seu presente finalmente havia sido dado. "queria muito poder te presentear".Em forma de agradecimento, ela ofereceu-lhe o mais doce dos chocolates. Contudo, já não desejavam mais sublimar o que dantes era proibido. Desta vez brincaram, lambuzaram, gozaram de felicidade e de prazer. "me ama, me chama, me inflama. Sou tua ama, tua cama, tua dama". Ao amanhecer, ela acordou e levantou o canto esquerdo da boca (num sorriso lamentoso e angustiado), como sempre fizera ao sair do mundo dos sonhos.



Por Juliana Belo



[dedicado a ELE, meu muso]

sexta-feira, 24 de abril de 2009

AS HORAS

Mas ainda sim, ela não sabia o que ia acontecer. Sofria por antecipação. O telefone não tocava. Não era, todavia, a primeira vez que aquilo ocorria: sempre lhe dizia que ligaria... mas até ali, nada!

E lembrou-se de quando aquela realidade era apenas um sonho distante. Passava horas nas escadarias conversando com outras, que, assim como ela, sonhavam. Por um momento lembrou o que a amiga professara para si na noite anterior. Sorriu.

Queria mesmo era sanar o mal entendido que suas palavras provocaram... Compulsão maldita! O que mais poderia acontecer? Já sei, um casal feliz sentar-se a seu lado.

E as horas passavam. Aparentemente todos a observavam, mas estava só. Só e observada, obcecada, obstinada, objetada, petrificada. Triste.

Toca telefone... toca.


Por Lívia de Oliveira

terça-feira, 7 de abril de 2009

(FEL)ICIDADE

Quando a rosa se despedaçou e ela foi embora, ele percebera que não havia mais saída, pois já se transformara em f-era. Sua bela não habitava mais o seu casarão. Enquanto ela falava, palavras e instantes eram recordados ao mesmo tempo em que os pedaços das pétalas caíam no chão e então percebera que estava despedaçado. Tudo estava perdido, a sua felicidade fora embora junto com o perfume dela. Seria tão simples se tudo fosse diferente, se ele não tivesse medo, se não fingisse... Mas quem disse que era fácil? O amor é difícil e é complicado. “sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse” *. A sua flor não era a mesma que ele queria dar de presente a ela. A flor que ele possuía era feita de pano, vivia guardada no bolso, à espera de uma oportunidade. A sua bela, essa era de verdade, saía do coração e era a única chance dele de encarar a vida e viver de verdade, pois nunca se dera conta de que a vida imaginária não era um sonho, mas sim um pesad(elo). A vida é, na verdade, algo difícil de encarar. O mais difícil era admitir seu amor, sua paixão e sua devoção. Era mais fácil se entregar ao fascínio de outras mulheres e tentar mentir a si mesmo que ela não era importante. O que ele não contava é que sua bela um dia resolveria fugir e tentar ser feliz. Então, o que ela não compreendera era que a felicidade que ela tentava dar a ele era engolida e sentida como o fel. Para quem tem medo de amar, o amor enfraquece e não fortalece. Ela sempre tivera vários pensamentos a respeito dele. “e era feliz sem ela, nada poderia fazê-la feliz sem ele! Nada! Era um egoísta. Assim são os homens” *. Após a passagem recém-chegada da vida para a morte, a conclusão dele era bem simples: “a vida nada tem a ver com rosas”*.

Nota: * trechos retirados do livro Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf.


Por Juliana Belo

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Clichê

Sentada, continuava a questionar-se sobre o que tinha ocorrido há dois dias atrás. Uma conversa cheia de sentimentos com a pessoa que ela jurava estar apaixonada. Foi confuso no começo, pois a criatura não queria revelar-se e depois descobrir que o esforço da verdade não valera de nada!... Contudo, surpresas acontecem.

Assim, de repente, ele começa a desvirtuar os rumos que aquela conversa tomara. Ela, atônita com o que acontecia, tentava não revelar verdades demais, “é muito arriscado!”, disse-lhe uma amiga. Mas ela seguiu o seu homem, o seu coração.

Ambos revelaram desejos, segredos guardados em baús do passado. Ela, contente por ver sua verdade compartilhada, começara a fazer planos, tecer sonhos. Pobre criatura! Ele, inebriado de todas as sensações das quais sofrem os apaixonados, revelou-lhe outros, que por agora, não poderiam se concretizar.

E pensava estar mais calma, ciente do que ocorrera há dois dias, no entanto aqueles calafrios ao vê-lo só aumentavam, ou pelo menos se estagnaram. Tal intensidade (e intenção) crescia, a ponto de não poderem mais. Entregaram-se.

Enquanto ele apagava a luz, mil coisas passavam por sua cabeça, e só uma pergunta restava: ”por que só agora?”... Ela, por sua vez, relembrava o que em diversas ocasiões ouvira de outros apaixonados: “tudo que é proibido...” e não sentiu necessidade de completar. A noite só estava começando.

Confessaram-se um ao outro como um dia fizeram Blimunda e Baltazar, Julieta e Romeu. O primeiro, verdadeiro; o seguinte, proibido. Ambos consumados. Mas o dela, o daquela noite, não. Menos por pudor do que por desejo.

Os calores foram os mesmos, os beijos ardentes foram os mesmos, o sentimento é que era maior. Ela acreditou ser àquela noite; ele acreditou que seria o primeiro e, no fim, era apenas o começo. Vestiram-se. Ao sair confirmou o que ele já sabia e que o desejo dos corpos abafara: “não quero ser a número 2”.

Quando já estava prestes a descer as escadas, deu um último olhar aquele que era seu passado, presente, porém não o futuro. Pelo menos por agora.


Lívia de Oliveira

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Felis(z) Catus


Desde a infância fora apaixonada por gatinhos. Adorava dar banho, comida, brincar e apertar-lhe com tanta força até o miado ouvir. Mas também o que mais lhe admirava era ver os primeiros passos, as primeiras brincadeiras no sofá e os tecidos todos desfiados por causa das garras bem afiadas. Somente uma coisa a deixava irritava: as saídas noturnas do gatinho.
Para evitar que o bichano a deixasse sozinha trancava toda a casa todos os dias e o amarrava com um belo laço de fita. Desta forma, poderia tê-lo a sua disposição toda a noite. O carinho pelo gatinho foi crescendo ainda mais e ela viu a necessidade de aumentar o espaço dedicado a ele em sua casa. Todavia, o bichano num ato de pura esperteza e um instinto de liberdade que é comum aos gatos, esperou o adormecer da dona e passou pela fresta da madeira que servia como portão. O gato sumiu noite afora. Ao amanhecer ela estava sozinha e solitária.



Por Juliana Belo