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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Diário da Pata Pan

06.10.2010

        Como sou uma mulher-poderosa, a propósito do livro Por que os Homens Amam as Mulheres Poderosas?, tenho uma vida social agitada e faço programas independentes de homem! Provando isso, fui assistir Comer, Rezar, Amar com algumas colegas de trabalho. Encontrei-as no shopping e partimos para nossa missão.
        O filme é lindo, super charmoso, com um toque de humor muito refinado!!! Trata-se de uma jornada de autoconhecimento, autodescoberta, elevação espiritual e, o mais importante: tem, como protagonista, Javier Bardem, o amor da minha vida. Mais o que mais me chamou atenção foram as coincidências com minha própria vida, que só quem me conhece sabe! Liz é uma mulher que tem tudo, mas insatisfeita e parte em uma aventura para se encontrar.
        Terminamos de ver o filme aos prantos e tive uma revelação: Paulo é meu Javier Bardem!!! Numa versão bem menos romântica e muito mais chata, mas é! Claro que o atualizei imediatamente da novidade! E confesso que fiquei muito tentada a largar tudo e me aventurar mundo afora também num processo de autodescoberta!
        Homenageando esse filme fantástico e tentando percorrer o mesmo caminho de Liz Gilbert, decidimos por dar o primeiro passo rumo a essa nova jornada, pedindo uma pizza e saboreando um bom vinho, já que comer na Itália foi a primeira meta de Liz. Agora só nos falta rezar na Índia e amar em Bali. Muito simples, por sinal.
       Acabamos três mulheres maduras e bêbadas a discutir sobre homens e sobre a nossa vida, tão pequena pros nossos sonhos. É incrível como mulher é tão mais complicada e desassossegada: sempre quer mais, sempre espera mais da vida. E nós três somos absolutamente iguais nesse aspecto. Definitivamente, não nascemos para uma vida padrão, regular, clichê. Nunca nos satisfaríamos. "Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável?" Não nós. Aspiramos por grandes paixões, grandes experiências, grandes aventuras, grandes viagens... No fundo, não passamos de umas românticas sonhadoras e bobocas...
       Na saída, cambaleando de "trêbada", passei na Toli e vi o vestido pelo qual eu sonhava há dois anos. Entrei na loja só para me endividar. Foram quase 600 reais gastos numa noite regada a uma simples taça de vinho. Mas não me arrependo! Ainda estou em estado de graça, em epifania total, dotada de grandes revelações e de três vestidos lindos!!!

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Por Brenna, A Pata.

sábado, 31 de outubro de 2009

IN-VERSOS

Hoje acordei e resolvi rasgar as cartas de amor nunca escritas. "Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas"*. Joguei fora o presente nunca embrulhado. Abri a caixa de Pandora e me restou somente a esperança, a última praga lançada à condição humana, esperar. Me limpei do suor nunca sentido, do cheiro nunca transpirado. Ai, o perfume inebriante adocicado. Senti ao sussurrar-te nos ouvidos o meu canto de paixão. Tirei o peso do teu corpo daquela dança nunca acabada. Tua mão me enlaçando me fez voar sem tirar os pés do chão. Naquele instante éramos os únicos ali. O maldito beijo não dado. Toquei de leve os teus lábios e senti jorrar pecado deles. Quando os mordi, voltei aos meus antepassados, pois Adão e Eva também erraram ao morderem um fruto proibido. Tentei acertar e errei. Ao errar, acertei. Sinto saudades daquilo que nem cheguei a sentir. O que senti não me traz saudades. Nos meus sonhos sempre estamos correndo e buscando algo. Nunca escolhemos as portas certas, nem as mesmas portas. Mas ontem, entramos no mesmo labirinto e lá nos perdemos. Quando vamos sair ou nos achar? Não sei. Mas sempre somos a seta que busca o alvo, a caça que foge do caçador, a estrada que sempre encontra curvas. Um dia esses caminhos irão se cruzar. Não por agora, é claro.



[dedicado a ELE, o moço e o muso. É sempre bom te encontrar]




Por Juliana Belo
*Cartas de amor, de Álvaro de Campos

domingo, 25 de outubro de 2009

De repente, 1 ano!

Pois é, o tempo passou!... Esse blog que vos fala completou um ano mês passado; dia 24 de setembro, pra ser mais exata. Ao longo desse ano, vocês acompanharam boa parte dos acontecimentos de nossas vidas. Quando digo “nós” me refiro as cinco Pagus – as cinco garotas que juntaram a fome com a vontade de comer. Então, como parte das “festividades”, fui praticamente intimada a escrever este texto de comemoração: fato! Mas escrever para o De repente é sempre um prazer; às vezes um prazer carregado de subjetividade, e que por isso mesmo o torna maior. Assim...

Pensei em relembrar todos os momentos pelos quais o De repente passou, e isso significaria contar a história de cada uma das escritoras desse blog e suas peripécias durante esse 1 ano. No entanto, não podemos esquecer que a “mentora” de nós todas é Patrícia Galvão (Pagu): poetisa, revolucionária, esposa, mãe, artista, mulher. Entendemos que DE REPENTE, PAGU! é tudo isso. É a exclamação no fim da frase, é uma conversa sobre sei lá o que no meio da aula, é o sentir de modo diferente. O inesperado.

Foi com o intuito de compartilhar nossos textos mais escondidos, nossas experiências mais enriquecedoras, nossas paixões, amores e desamores que esse blog se fundou, porque nosso lema sempre foi escrever sobre tudo – de trabalhos acadêmicos á poesia da imagem. Tanto que, vocês leitores e amigos do De repente, acompanharam de perto nossas mudanças e nosso fluxo textual. É verdade que, outrora, nossa produção foi bem maior, mas é como já relatei tempos atrás: nossas vidas ficaram bastante atribuladas e, algumas de nós, não estão podendo postar seus textos como era costume. Todavia, isso não quer dizer que paramos de produzir; pelo contrário! O que falta é “tempo” para postar as novidades.

De forma despojada, mas ao mesmo tempo preocupada com o conteúdo é que se faz a escrita do Pagu – como é chamado pelos mais íntimos. Não pense você, minha cara leitora, que esse blog é lido apenas por garotas! Não, não. Nossos maiores incentivadores são homens: os que passaram por nossas vidas, os que são amigos e os que vêm dar aquela espiadinha e acabam ficando. Sim, acreditem! Também a mudança é bem vinda. Assim nos infiltramos no mundo dos caça-talentos e, caso você queira dividir suas produções com o mundo, nos comunique; estamos sempre dispostas a enriquecer o Pagu e a conhecer (ou reconhecer) esses novos (e às vezes nem tão novos) talentos. Todos serão apreciados!

O De repente, Pagu! se orgulha em ter partilhado com você aí do outro lado da tela – do outro lado do mundo ou do outro lado do muro – esse 1 ano. Foram muitas as mudanças; algumas delas a olhos vistos, outras nem tanto. Mas aos poucos nós, juntamente às opiniões de vocês, faremos muito mais. Podem esperar, porque vem coisa boa pela frente! Afinal já mexemos e remexemos com a inquisição, morremos na fogueira e aprendemos o que é ser carvão. Somos pau pra toda obra e Deus dá asas a nossa cobra. Mas vá com calma, pois nossa força não é bruta, não somos freiras e nem putas!... Rainhas do tanque?! Talvez. Pagus indignadas no palanque, sempre. Temos fama de porra-louca, tudo bem! Também somos filhas de alguma Maria ninguém. É claro que às vezes parece o contrário, mas não somos atrizes, modelos ou dançarinas, e de fato o nosso buraco é mais em cima! “Porque nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda, meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem”*.


Por Lívia de Oliveira

P.S.: parabéns para nós!!!! \o/

* Releitura da música Pagu composta por Rita Lee e Zélia Duncan, interpretada por Maria Rita.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

AS HORAS

Mas ainda sim, ela não sabia o que ia acontecer. Sofria por antecipação. O telefone não tocava. Não era, todavia, a primeira vez que aquilo ocorria: sempre lhe dizia que ligaria... mas até ali, nada!

E lembrou-se de quando aquela realidade era apenas um sonho distante. Passava horas nas escadarias conversando com outras, que, assim como ela, sonhavam. Por um momento lembrou o que a amiga professara para si na noite anterior. Sorriu.

Queria mesmo era sanar o mal entendido que suas palavras provocaram... Compulsão maldita! O que mais poderia acontecer? Já sei, um casal feliz sentar-se a seu lado.

E as horas passavam. Aparentemente todos a observavam, mas estava só. Só e observada, obcecada, obstinada, objetada, petrificada. Triste.

Toca telefone... toca.


Por Lívia de Oliveira

quinta-feira, 16 de abril de 2009

MODA: A LINGUAGEM DO CONSUMISMO E DO APELO




No universo da moda, questões que envolvem estilo, atitude e aparência são fundamentais. Ao consumidor, estas palavras resumem as necessidades esperadas. No mundo atual, cujas imagens são o centro das comunicações, a publicidade e a moda reinam e ganham espaço. Este só é conseguido mediante a relação existente entre linguagem e consumo. Diríamos mais ainda: dá-se através de relações simbólicas que são construídas a partir de conceitos que a moda representa. A publicidade, uma grande aliada da moda juntamente com a televisão, representa uma instância que promovem ideais e valores da sociedade de consumo. Um ponto que deve ser ressaltado é a importância da arte para a construção destes ideais: “a princípio, sua finalidade seria a venda, e os meios para atingi-la seriam retirados da arte, valendo-se de elementos da subjetividade do consumidor” (SEVERIANO: 2001, p. 170)
Neste mundo cheio de símbolos, o produto da moda não é só em si mesmo um produto: a questão ultrapassa a necessidade de vestir-se. Ao comprar uma peça da moda, o consumidor passa a vivenciar e a integrar num mundo diferenciado, onde só os que obtiveram os objetos da moda compartilham o mesmo código: o das pessoas com estilo, as diferenciadas e as especiais. Para Maria Severiano, o produto não é o principal a ser vendido: o que deve ser vendido são as idéias, os símbolos, os valores, os arquétipos, os desejos, a diferença e o estilo. Como estratégia, a linguagem da moda se utiliza de duas características fundamentais: a forma artística e a subjetividade do cliente. No que diz respeito à forma artística, temos uma problemática: a publicidade, com meio de divulgar o produto é arte?

Apesar de muitos publicitários e estilistas afirmarem que ao utilizar-se de símbolos para a construção dos ideais da sociedade de consumo, estão produzindo arte, é bom ressaltar que para muitos a publicidade é vista de forma negativa: ela não tem obrigações éticas, ilude o povo e tem como finalidade a venda imediata. No caso da indústria da moda, ela é concebida como arte, se utiliza da arte, mas o objetivo final é a venda.
“A arte pretende vender nada senão a si mesma, enquanto que a publicidade vende outra coisa, ela é simplesmente um meio para um fim que é externo à sua própria forma” (SEVERIANO: 2001, p. 172)

O outro ponto chave que a moda se utiliza é a subjetividade do cliente que se apresenta como o fim último da moda. Aos consumidores são destinadas as necessidades de se promover, satisfazer e se realizar. É importante ressaltar que esta realização do consumidor é algo ilusório, pois não pode haver satisfação, senão o consumismo exacerbado chegará ao fim. Ao comprador, cabe a função de tentar se satisfizer em outra compra, em outra tendência, em outra moda. Não é sem objetivo que os padrões da moda são reinventados e pensados. No grande fetichismo das imagens, a compra é vista como algo sedutor, simpático que atende às necessidades de realização dos desejos do consumidor.
No mundo construído pela moda, novas possibilidades são construídas, novos padrões são estabelecidos e a sociedade do consumo as aceita e os reconstrói. A linguagem utilizada apresenta-se de forma subjetiva com a ajuda de recursos imagéticos. Tal linguagem é caracterizada “por explorar o universo dos desejos do consumidor, através da manipulação de signos que fazem a mediação entre objetos e pessoas” (SEVERIANO: 2001, p. 227).
Mediante os recursos imagéticos, a moda se utiliza da construção da imagem do consumidor, que é apresentado a um mundo criado através de seus desejos. Desta forma, as individualizações dele são liberadas e as escolhas do cliente revelam liberdade. Porém, é necessário ressaltar que esta aparente liberdade acaba funcionando como uma verdadeira escravidão para este consumidor. O processo de comunicação acaba sendo um veículo de fundamental importância para a concretização desta inter-relação entre consumidor e objeto de consumo, pois “ a comunicação, ao se tornar cada vez mais uma entidade fetiche, invade o campo intelectual, tornando-se responsável por uma verdadeira “psicopedagogia de massa” em seus diversos seguimentos” (SEVERIANO: 2001, p. 180).
Outra atribuição dada à Comunicação é o estabelecimento de uma comunicação personalizada, que só é possível através de uma linguagem personalizada, cujos pronomes de tratamento pessoais tentam provocar no consumidor intimidade e posteriormente, confiança no produto. A utilização de pronomes como “tu e você” acabam seduzindo o consumidor que efetiva a compra. Porém, é necessário frisar que esta atitude da comunicação pode ocasionar a frustração do consumidor, pois a linguagem que o seduzira, pode mascarar um produto de péssima qualidade.
“ao mesmo tempo que a imagem revela o objeto, também o mascara, suscitando, assim, uma atitude de “veleidade enganada” (SEVERIANO: 2001, p. 204).
No que diz respeito à linguagem utilizada pela moda, como foi explicitado anteriormente, esta se apresenta de forma subjetiva ao consumidor. Porem, a elaboração desta dá-se de forma racional e planejada. Portanto, esta subjetividade só é efetivada na relação com o objeto e as imagens que ele provoca: atitude, estilo e outros conceitos construídos. No que diz respeito a estilos e conceitos, é importante deixar claro que estas questões não são tratadas de forma unívoca por estilistas. Cada gênero que a obra pretende atender há conceitos e estilos diferenciados, pois a marca acaba representando o que o consumidor pretende: a marca indica sofisticação, atitude despojada, a idéia de modernidade, de integração, de mulher liberal, com atitude, ou um homem moderno e vaidoso, por exemplo. Para o estudioso Alexandre Bergamo, o discurso da individualização da moda não existe, pois as relações sociais é que vão constituir as posições e os signos:
“Embora todo o discurso seja orientado para que um indivíduo tenha estilo, ou seja, elegante, o universo social não é constituído por indivíduos, mas por posições sociais e por relações entre tais posições. A etiqueta esperada nada é mais senão o cumprimento da ordem social: a discriminação e a manutenção da posição que as pessoas ocupam dentro dessa ordem. As relações entre as pessoas são sempre, com isso, relações entre posições sociais reguladas pela conveniência exigida para a manutenção dessas posições e, portanto, dessa ordem” (BERGAMO: 2004, p. 89).

A linguagem utilizada pela moda, é construída para atender classes e estas, vão se utilizar da moda para expor seus conceitos. Nesta relação é difícil estabelecer de onde vem a ordem primeira: a moda influencia as classes ou as classes é que ditam a moda. Pode-se perceber uma relação dialética e conflituosa neste processo. O que deve ficar bem explícito é através da linguagem consumista, novos padrões e signos vão sendo reinventados e apresentados a esta nova sociedade.



Por Juliana Belo

domingo, 29 de março de 2009

Todo mundo conhece, mas ninguém me apresenta

Sempre tive medo de amar demais e ficar louca. Calma, isso não é um testemunho de uma mulher que ama demais. É apenas um desabafo de uma pessoa que possui muitos amigos que eu poderia dizer que são um tanto descuidados, desinteressados pelos meus desejos e pela minha ansiedade. Para quem ainda não entendeu, vou explicar: conheço esse rapaz apenas de corredores. Todavia, mais estreito que um corredor era a relação dele com certos amigos meus. Desta forma, decidi chegar até ele de uma maneira bem curta: a velha e boa apresentação. Selecionando meus amigos, resolvi escolher uma amiga super discreta. O que eu não contava é que ela era a lerdeza em pessoa! Sol e lua dormiam e acordavam e nada dela acordar para minha situação. Naquele ponto, minha ansiedade e meu desejo por chegar aos lábios do rapaz só aumentavam e nada de uma mísera apresentação. Após tanto esperar, ela foi demitida do cargo, pois já estava cansada, louca e obcecada pelo moço. Durante duas semanas ele povoou meus sonhos e no reino das minhas fantasias ele falava comigo, estava comigo e era com-igor. Poucas vezes tive sonhos tão maravilhosos... Voltando à narrativa, percebi que outros amigos o conheciam muito bem. Através deles, descobri o desenho que ele gosta, a bebida e até os palavrões mais utilizados. Senti-me tão perto, tão íntima. Escutava tudo e tentava não demonstrar minha satisfação ao saber de todos aqueles pormenores grandiosos. Confessei que não conhecia o rapaz da mesma forma que eles e que tinha até uma impressão negativa a respeito dele. Todos me prometeram que um dia me apresentariam a ele. Até hoje espero por isso... Outro problema se revelou no dia-a-dia: minha falta de sorte aliada a uma conspiração de todo o Sistema Solar, da Via Láctea e de meus adversários, pois todos o encontravam pela cidade, exceto eu. Então, decidi que não vou desistir. Passei a freqüentar lugares que os pés dele pisam e um dia talvez... Mas não canso de pedir a todos que me apresentem, que digam meu nome, me insiram no mapa de conhecidos desta pessoa. Não fiquei louca de amor, nem amo demais. Apenas o quero. Quero a voz, os beijos e a atenção. Quero apenas dizer: muito prazer, pois sou a sua.

Notas:
qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Isso se trata de um texto de ficção.
Àqueles que o conhecem, mas nunca me apresentaram: amigos como vocês, ninguém merece!
Lívia: valeu pela sugestão do texto
Brenna: você me serviu de exemplo. Nunca pensei que ter uma obsessão fosse tão legal.

Por Juliana Belo

domingo, 1 de março de 2009

Mês dedicado à Mulher


Tendo em vista o dia 8/03 que é o dia internacional da mulher, decidi iniciar o mês de março com a proposta de escrever sobre mulheres. Prezados leitores/internautas, vocês não lerão neste blog um apanhado de ideologias feministas ou tentativas de elevar a mulher ao poder. Penso que devemos discutir sobre várias questões que envolvem o universo feminino. O texto a seguir é de um grande amigo baiano, o Lázaro Barbosa que, da mesma forma que nós Pagus, tem um blog. Espero que o texto dele nos incite a boas discussões.

Do clitóris ao papanicolau
Ninfomania não tem mesmo hora pra chegar. Conversávamos, eu e meu irmão, qualquer besteira que não lembro nem importa lembrar agora. Conversávamos, ele lavando roupa, eu lavando os pratos, ao som de Titãs. Eu tava gostando da música, repetia ela várias vezes. Então, confabulando comigo mesmo, comecei a fazer um projeto simples de exegese. A base desta postagem é a primeira faixa do CD Tudo ao Mesmo Tempo Agora.

Vejamos, então, o primeiro verso. Parece um mantra, repete solenemente o nome daquele botão carnal, daquele centro vulcânico da genitália externa da mulher: o clitóris. A etimologia sugere o toque lascivo das partes pudendas: nada como um roçar, vaivém frenético e apetitoso, tanto faz se é o dedo, o pênis ou a língua; o toque delicioso faz estremecer e explodir na volúpia localizada, que não tarda a se expandir e ganhar o corpo inteiro de sua dona (1).Tudo isso a despeito de práticas em certas regiões do globo, notadamente entre muçulmanos no Oriente Médio e algumas etnias africanas, que o enxertam todo, levando embora até a vulva, se necessário. Basta um contato, mesmo o mais efêmero e tímido: então a jovem senhora menina experimenta o que quer o que pode essa anatomia.
No entanto, nem todo mundo gosta desse marcador biológico. Não me refiro a workaholics, adeptos do SM, ou àquelas que, por força de dramas pessoais, congelou e estagnou a sensibilidade daquela jóia dourada. Me refiro à Igreja Católica, uma grande responsável pelo tabu da sexualidade em geral e, naturalmente, ele não estava de fora. Em vez do clitóris, friccionemos o genuflexório na hora da missa. Deixemos o prazer carnal de fora, uma vez que existem prazeres mais sublimes e duradouros para além desta vida. Ainda há o confessionário para ajudar a suprimir esses pensamentos pervertidos. Mas pensemos bem: até que ponto um homem que se diz casto pode orientar os (e principalmente as) fiéis a deixar o sexo – e, conseqüentemente, o clitóris – para depois do casamento? O celibato foi um dos piores dogmas instituídos pelo catolicismo, que tolhe e deforma a sexualidade de clérigos por todo a parte. (Estou pondo de fora aqueles que, sem qualquer coerção – ainda menos a religiosa – , passa muito bem sem o sexo; mas esta é uma minoria cada vez mais minoritária.) Não sem razão, o Opus Dei sai por aí à cata de padres pedófilos, abafando os escândalos sexuais tão recorrentes em lugares como os EUA. Ainda nos Estados Unidos, mais precisamente em Los Angeles: ê lugarzinho pra ter figurinhas eclesiásticas reacionárias! Lembro de ter lido um capítulo dum livro de Mike Davis (Cidade de Quartzo – Escavando o Futuro de Los Angeles) apenas sobre elas; entre suas atividades, estava incluso um boicote à campanha contra a AIDS e, se não me engano, incentivando o não-uso da camisinha. Então podemos aumentar a promiscuidade assim de qualquer maneira? Duvido que qualquer fiel devidamente esclarecido e com vida sexual ativa – a despeito das recomendações papais, cardinais etc. – evite pegar um pedaço de borracha pra deixar o gozo mais seguro.

E, então, quando pega no ato, a jovem senhora menina sente o peso avassalador da verborragia histérica e precipitada. Agora, ela é chamada de suja; gritam que ela surja, o corpo e a mente imaculados pelas delícias proibidas. Ninguém nem sabe onde ela terá feito, muito menos se terá feito; no entanto, a simples suspeita do líquido grosso, melando seja lá qual for a parte de sua anatomia, é suficiente para arrumar justificativas estapafúrdias e invasivas da intimidade genital feminina. Aborta! Casa! Vai embora desta casa! (2)

Quando não se contentam com o grito, mandam imediatamente para o ginecologista, saber se o lacre está no lugar. Não é bem para isso que serve o papanicolau, mas o simples fato de poder ser feito já implica no diagnóstico positivo por parte dos pais, tutores, madrinhas etc. Implica, mais ainda, um prolongamento vergonhoso da tortura com a mulher, já que o homem pode muito bem sedá-la e fazer o que lhe vier à cabeça. O que era pra ser um exame de prevenção se torna o coroamento do ataque à mulher: (3) até onde sei, quase nenhuma gosta de dar satisfação de quem pega ou deixa de pegar em seu clitóris, não é mesmo?

(1) Alguém, sem entender essa prolixia falsamente intelectual, apenas diz: ah, o negócio é tocar uma siririca na gata, fazer ela gozar bem muito!

(2) Isso me lembrou – mente suja imunda – um grito de guerra, um slogan sardônico e pouco criativo. Não tenho mais o que acrescentar nesse parágrafo, porque a letra já é eloqüente por demais.

(3) Não sejamos tão precipitados: de repente ela esteja brincando de médico com o pé-de-lã e eu não saiba.

texto escrito especialmente por Lázaro Barbosa. Mais textos deste autor disponíveis em:
http://lazarobarbosa.blogspot.com

Por Juliana Belo