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sábado, 31 de outubro de 2009

IN-VERSOS

Hoje acordei e resolvi rasgar as cartas de amor nunca escritas. "Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas"*. Joguei fora o presente nunca embrulhado. Abri a caixa de Pandora e me restou somente a esperança, a última praga lançada à condição humana, esperar. Me limpei do suor nunca sentido, do cheiro nunca transpirado. Ai, o perfume inebriante adocicado. Senti ao sussurrar-te nos ouvidos o meu canto de paixão. Tirei o peso do teu corpo daquela dança nunca acabada. Tua mão me enlaçando me fez voar sem tirar os pés do chão. Naquele instante éramos os únicos ali. O maldito beijo não dado. Toquei de leve os teus lábios e senti jorrar pecado deles. Quando os mordi, voltei aos meus antepassados, pois Adão e Eva também erraram ao morderem um fruto proibido. Tentei acertar e errei. Ao errar, acertei. Sinto saudades daquilo que nem cheguei a sentir. O que senti não me traz saudades. Nos meus sonhos sempre estamos correndo e buscando algo. Nunca escolhemos as portas certas, nem as mesmas portas. Mas ontem, entramos no mesmo labirinto e lá nos perdemos. Quando vamos sair ou nos achar? Não sei. Mas sempre somos a seta que busca o alvo, a caça que foge do caçador, a estrada que sempre encontra curvas. Um dia esses caminhos irão se cruzar. Não por agora, é claro.



[dedicado a ELE, o moço e o muso. É sempre bom te encontrar]




Por Juliana Belo
*Cartas de amor, de Álvaro de Campos

domingo, 9 de agosto de 2009

Memórias, Crônicas e Declarações de Amor*

Quero ter-te. Meu corpo clama, chama e inflama pelo Teu. Incomoda-me a indefinição de tudo o que sinto. “Se pudesse te dizer aquilo que nunca te direi tu terias que me explicar aquilo que nem eu mesmo sei**. Sei que não é amor puro tal como Orfeu e Eurídice, pois tens gosto de fruta mordida”. O veneno que penetrou meu corpo paralisou-me da mesma forma ocorrida àquela cujo tom de pele assemelha-se à neve. “Quero-te com voracidade”. Adoro quando me chamas de moça, de menina. Pela primeira vez percebi o quanto é bom se sentir criança. “Adoro provocar-te. Então imagino-nus. Sou tua Ofélia. Quero (en)cantar-te em versos e canções.” És meu mouro e sou tua Desdêmona. Não. Não me sufocaste com ciúmes doentios. Fui sufocada com tua presença”. Até o que não me agrada em ti me enlouquece. Não suporto tua prudência. Tua cautela em respostas curtas tem efeito longo. Odeio teu aspecto pensativo e reflexivo. “Não quero pensar, quero sentir. Ai, a maldita dialética pessoana. Penso sentindo, sinto pensando. Não! Entre sentir e pensar escolho sentir. Mas não posso ficar sem ti”.


[dedicado a ELE, o moço. Aquele que não posso ter]

Notas:
*Sim, está relacionado ao cd de Marisa Monte. E tudo mais que há nele e não está aqui
** Quadras ao gosto popular, de Fernando Pessoa


Por Juliana Belo

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Palavras a ti

Passada a turbulência do abandono, a tentativa de trilhar seu caminho foi uma necessidade. Na sua nova jornada, sensações descobertas. Um brilho que até então estava escondido a fez perceber que o passado ofuscante realmente havia passado. Nos seus encontros, a surpresa: novos corpos, novas danças e um desejo incontrolável de não pertencer a outro, mas a si mesma. Ao ser dona de si, a percepção de que poderia ter outros, beijá-los e devorá-los, pois sempre fora dominadora, altiva e decidida. O mais desejado e cobiçado era também o mais difícil. Ó deus ébano, tuas tranças laçaram-me no mundo da teimosia e do desejo. Ainda serás meu e teu corpo será meu instrumento de brincadeira! Outros vieram e tentaram ganhar seus beijos, seu carinho e até o seu amor, porém, a deusa da noite não queria a companhia de outros, já que a vida lhe ensinara outra coisa: o passado é sempre presente. Em meio às sensações novas, uma ainda é constante: o amor primeiro. Porque sim, foste o primeiro. Não fomos Romeu e Julieta, nem Heloise e Abelard, muito menos Tristão e Isolda. Somos Blimunda e Baltazar, pois me fizeste tua lua e me queimei na luz do teu sol. Elegeste-me tua Capitu e vesti-me como a noite para nosso amor celebrar. Dançaram ao som de Norah Jones e Diana Kral. Cantaram juras e gemidos que entravam pelo ouvido e eram traduzidas pela boca, a mesma que beijava, jurava e engolia toda a fonte de vida e de prazer... Somos aquilo que fazemos. Façamos então...



Por Juliana Belo